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07 Fevereiro 2002
Nota do webmaster: Tolkien tinha o costume de fundar e freqüentar clubes, em geral do tipo literário. Esse hábito o acompanhou por boa parte de sua vida adulta, e só perdeu força nos anos de sua velhice.
Foi em um destes clubes, chamado Inklings, que ele e seu amigo de longa data, C. W. Lewis, fizeram uma curiosa aposta. Ambos iriam escrever um livro, e o melhor deles seria escolhido pelos freqüentadores do clube... uma aposta de cavalheiros. Segundo o combinado, Lewis escreveria sobre Viajgm no Espaço, e Tolkien sobre Viagem no Tempo. O livro de Lewis foi concluído e publicado, mas Tolkien nunca chegou a concluir o dele (aliás, o professor tinha esses hábito de iniciar e não concluir suas obras literárias). Abaixo temos a tradução do pouco que Tolkien chegou a escrever, ele pretendia fazer com que a lenda de Númenor fosse amplamente aproveitada neste livro, e de fato, muitas informações curiosas e quase autobiográficas surgem nestas poucas páginas.
Capítulo I
Um passo adiante, jovem Alboin
- Alboin! Alboin!
Não houve nenhuma resposta. Não havia ninguém no quarto de brincar.
- Alboin, onde está você? – chamava a voz - Oswin Errol permaneceu à porta e chamou no pequeno jardim na parte de trás de sua casa. Finalmente uma voz jovem respondeu, soando distante e como a resposta de alguém adormecido ou há pouco despertado.
- Sim?
- Onde está você?
- Aqui!
- Onde é "aqui”?
- Aqui em cima do muro, pai.
Oswin saltou os degraus da porta até o jardim, e andou ao longo do caminho margeado por flores. Este conduzia depois de uma volta a um muro baixo de pedra, separado da casa por uma cerca. Além do muro de pedra havia um breve espaço de relva, e então uma borda de um precipício, além do qual estendia-se, e agora tremeluzente em uma noite calma, o mar ocidental. No muro Oswin encontrou seu filho, um menino por volta dos doze anos, que permanecia contemplando o mar afora com o queixo apoiado nas mãos.
- Então aí está você - disse Errol - eu estava chamando há muito tempo. Você não me ouviu?
- Não antes da vez quando respondi - disse Alboin -
- Bem, você deve estar surdo ou sonhando, - disse seu pai - e me parece que estava mesmo sonhando. Está ficando muito próximo da hora de ir pra cama; então, se você quiser qualquer história hoje à noite, nós teremos que começar imediatamente.
- Sinto muito, pai, mas estava pensando.
- Sobre o que?
- Oh, muitas coisas misturadas: o mar, o mundo, e Alboin.
- Alboin?
- Sim, eu queria saber por que Alboin? Por que eu sou chamado Alboin? Eles freqüentemente me perguntam "por que Alboin?” na escola, e me chamam de All-bone. (todo-osso, em inglês).
- Mas eu não sou assim, sou?
- Você parece bastante ósseo, menino; mas você não é todo osso, me alegro em dizer. Eu fico receoso de tê-lo chamado Alboin, e isso é porque você é chamado assim. Sinto muito, eu nunca pretendi que isso fosse um estorvo para você.
- Mas é um nome real, não é? - perguntou Alboin ansiosamente - Quero dizer, ele significa algo, e os homens já foram chamados assim? Não é um nome apenas inventado?
- Claro que não. É um nome tão real e tão bom quanto Oswin; e pertence à mesma família, você poderia dizer isso na escola. Mas ninguém nunca me aborreceu a respeito de Oswin. Embora eu fosse chamado freqüentemente de Oswald por engano. Lembro-me como isso incomodava, entretanto não posso pensar por que. Eu era bastante escrupuloso com relação ao meu nome.
Eles permaneceram conversando no muro, contemplando o mar; e não voltaram para o jardim ou para a casa até a hora de ir pra cama. A conversa, como freqüentemente acontecia, vagueou em contar histórias; e Oswin contou ao seu filho o conto de Alboin filho de Audoin, o rei Lombardo; e da grande batalha dos Lombardos e os Gepids, lembrada como terrível até mesmo no horrendo sexto século; e dos reis Thurisind e Cunimund, e de Rosamunda.
- Essa não é uma boa história para perto da hora de ir a cama - ele disse - terminando de repente com Alboin bebendo no crânio adornado com jóias de Cunimund.
- Eu não gosto muito desse Alboin - disse o menino - gosto mais dos Gepids, e o Rei Thurisind. Quisera eu que tivessem vencido. Por que não me chamou Thurisind ou Thurismod?
- Bem, realmente sua mãe pretendia chamá-lo Rosamund - disse Errol, num sorriso melancólico - só que você resultou num menino. E ela não viveu para me ajudar a escolher outro nome, você sabe. Assim tirei um daquela história, porque parecia se ajustar. Quero dizer, o nome não pertence só àquela história, é muito mais antigo. Você preferiria ter sido chamado de Amigo dos Elfos? Porque isso é o que o nome significa.
- Não, acho que não - disse hesitantemente Alboin - eu gosto que nomes signifiquem alguma coisa, mas não que digam algo.
- Bem, eu poderia tê-lo chamado AElfwine, é claro; esta é a velha forma inglesa de Amigo dos Elfos. Eu poderia tê-lo chamado de tal maneira, não somente conforme AElfwine da Itália, mas conforme todos os Amigos dos Elfos de tempos antigos; conforme AElfwine, o neto do Rei Alfred, que tombou na grande vitória em 937, e AElfwine que sucumbiu na famosa derrota em Maldon, e muitos outros ingleses e nortistas na longa linhagem dos Amigos dos Elfos. Mas lhe dei uma forma latinizada. Eu acho que é melhor, os dias antigos do Norte se foram além da recordação, exceto na medida em que foram trabalhados na forma das coisas como nós as conhecemos, na Cristandade.
- Assim eu escolhi Alboin - continuou Errol - porque não é Latin e nem vem diretamente das línguas do antigo norte, e esse é o modo da maioria dos nomes no Oeste, e também dos homens que lhes deram a vida. Eu poderia ter escolhido Albinus, pois esse é no que eles algumas vezes transformaram seu nome; e não teria recordado seus amigos de ossos. Mas é muito Latim, e significa algo em Latim. Além disso você não é branco ou belo, menino, mas escuro. Assim Alboin você é. E isso é tudo que há, exceto a cama.
E eles entraram.
Mas Alboin olhou para fora de sua janela antes de ir pra cama; e pôde ver o mar além da borda do penhasco. Era um pôr-do-sol tardio, porque estavam no verão. O sol afundava lentamente para o mar, e imergia vermelho além do horizonte. A luz e a cor enfraqueceram rapidamente por causa da água: um vento frio subiu do Oeste, e além da margem do pôr-do-sol grandes nuvens escuras velejaram, estendendo enormes asas para o sul e em direção ao norte, ameaçando a terra.
- Elas se parecem com as águias do Senhor do Oeste vindo sobre Númenor - disse Alboin disse em voz alta - e desejou saber por que isso lhe ocorreu, embora não lhe parecesse muito estranho. Naqueles dias freqüentemente inventava nomes. Olhando sobre uma colina familiar, ele veria repentinamente erguendo-se em algum outro tempo e história. As costas verdes de Amon-ereb. - ele diria, com ar sonhador - As ondas são altas nas orlas de Beleriand - disse ele certo dia - quando a tempestade estava acumulando água ao pé do rochedo debaixo da casa.
Alguns destes nomes realmente foram inventados, para agradá-lo a si próprio com o seu som (ou assim ele pensou); mas outros pareciam 'reais', como se não tivessem sido falados primeiro por ele. Foi assim com Númenor. 'Eu gosto desse - disse a si mesmo – acho que poderia pensar em uma longa história a respeito da terra de Númenor.
Mas enquanto dormia na cama, achou que a história não seria imaginada. Logo esqueceu do nome; e outros pensamentos aglomeraram-se nele, em parte devido às palavras do seu pai, e em parte aos seus próprios devaneios de antes.
- Alboin escuro - pensou - me pergunto se há algo Latino em mim. Não muito, acredito, amo as orlas ocidentais e o mar real. Isto é bastante diferente do Mediterrâneo, até mesmo em histórias. Eu queria que não houvesse nenhum outro lado para isto. Haveria pessoas de cabelo escuro que não fossem Latinos. Os Portugueses são Latinos? O que é Latino? Eu me pergunto que tipo de povo vivia em Portugal e Espanha e Irlanda e Inglaterra em dias antigos, dias muito antigos, antes dos Romanos ou dos Cartagos. Antes de qualquer outro. Eu gostaria saber quem os homens imaginavam que foi o primeiro a ver o mar ocidental.
Então ele dormiu, e sonhou. Mas quando despertou o sonho escapou além da recordação, e não deixou nenhuma história ou nenhuma imagem para trás, só o sentimento que estas trouxeram: o tipo de sentimento que Alboin relacionava com nomes há muito tempo estranhos. Ele se levantou. O verão passou rapidamente, Alboin foi para a escola e continuou aprendendo Latim.
Este também aprendeu Grego. E depois, quando estava com aproximadamente quinze anos, começou a aprender outros idiomas, especialmente aqueles do Norte: Inglês Antigo, Escandinavo, Galês, Irlandês. Isto não foi muito encorajado - nem mesmo pelo seu pai que era um historiador. Latim e Grego, parecia-se considerar, que eram o bastante para qualquer pessoa; e realmente antiquados o bastante, quando havia tantos idiomas modernos prósperos (falados por milhões de pessoas); para não mencionar matemática e todas as ciências.
Mas Alboin gostou do sabor dos idiomas mais antigos do norte, tanto quanto gostou de algumas das coisas escritas neles. Ele conseguiu saber um pouco sobre história lingüística, naturalmente; ele considerou que esta lhe era mais propriamente empurrada de qualquer maneira pelos escritores de gramática de 'idiomas não clássicos'. Não que ele objetasse: as mudanças de som eram um passatempo seu, na idade em que outros meninos estavam aprendendo sobre os interiores de motores de carros. Mas, embora tivesse alguma idéia do que devia ser as relações de idiomas Europeus, isto não lhe parecia realmente toda a história. Os idiomas dos quais gostava tinham um sabor definido - e até certo ponto um sabor semelhante que os mesmos compartilhavam. Esse sabor parecia, também, de algum modo relacionado à atmosfera das lendas e mitos contados nos idiomas.
Um dia, quando Alboin estava quase com dezoito anos, estava sentado no estúdio com o seu pai. Era outono, e o fim dos feriados de verão passados principalmente ao ar livre. O entusiasmo estava voltando. Era o tempo em todo o ano quando a sabedoria dos livros é mais atraente (para aqueles que realmente gostam disto de algum modo). Eles estavam falando sobre 'linguagem'. Pois Errol encorajava seu menino a falar sobre qualquer coisa em que estivesse interessado; embora secretamente tivesse estado se perguntando durante algum tempo se idiomas Do Norte e lendas não estavam tomando mais tempo e energia do que o seu valor prático em um mundo difícil justificava.
- Mas é melhor que eu saiba o que está acontecendo, até onde qualquer pai possa saber - pensou ele - Alboin continuará de qualquer maneira, se realmente tem uma inclinação - e é melhor não ser inclinado para seu íntimo.
Alboin estava tentando explicar seu sentimento a respeito da atmosfera das linguagens: - Você recebe ecos que sobrevivem, sabe, - ele tentava explicar - em palavras estranhas aqui e ali, freqüentemente palavras muito comuns nos seus próprios idiomas, mas bastante inexplicadas pelos etimólogos; e na forma geral e som de todas as palavras, de alguma maneira; como se alguma coisa estivesse espreitando pelo fundo sob a superfície.
- Claro que não sou um filólogo - disse o seu pai - mas nunca poderia ver que houvesse muita evidência a favor de designar mudanças de idiomas para um substrato. Embora eu suponha que ingredientes subjacentes tenham uma influência, embora não seja fácil definir, na mistura final no caso de povos tomados como um todo, diferentes talentos nacionais e temperamentos, e aquele tipo de coisa. Mas raças e culturas são diferentes de idiomas.
- Isso é verdade - disse Alboin - mas raças, culturas e idiomas estão muito misturados, no mesmo caldeirão por assim dizer, todos os três juntos. E afinal de contas, a linguagem regressa por uma tradição contínua em direção ao passado, tanto quanto os outros dois. Eu penso com freqüência que se conhecesse as faces vivas de quaisquer dos homens ancestrais, um longo caminho de volta, poderia encontrar algumas coisas estranhas. Você poderia considerar que ele adquiriu o seu nariz bastante claramente, digamos, do bisavô da sua mãe; e ainda que alguma coisa a cerca do seu nariz, sua expressão ou sua forma ou seja lá de qual maneira goste de chamar a isso, realmente descendeu de muito mais distante no passado, de, digamos, seu trisavô ou seu tetravô. De qualquer maneira eu gosto de regressar - e não com a raça somente, ou cultura, ou linguagem; mas com todos os três. Eu quisera poder regressar com os três que estão mesclados em nós, pai; apenas os simples Errols, com uma pequena casa em Cornwall no verão. Eu me pergunto então: o que veríamos.
- Depende de quão distante você iria regressar - disse o pai - se você regressou além das eras do Gelo, eu imagino que não encontraria nada nestas partes; ainda se encontrasse alguma coisa, seria uma raça muito bestial e feia imersa em uma cultura de unhas e dentes, e com um idioma asqueroso e sem ecos.
- Regressar mesmo? - perguntou Alboin - Eu desejo saber, e regressar.
- De qualquer maneira você não pode regressar - disse seu pai - exceto dentro dos limites prescritos para nós mortais. Você pode regressar de certo modo por estudo honesto, trabalho longo e paciente. É melhor você dedicar-se a arqueologia como também filologia: elas devem proceder bem o bastante juntas, embora não sejam unidas com muita freqüência.
- Essa é uma boa idéia - disse Alboin - mas você se lembra, há muito tempo, quando disse que eu não era todo-osso. Bem, eu quero alguma mitologia, também. Eu quero mitos, não só ossos e pedras.
- Bem, você pode tê-los! Assuma a porção completa - disse seu pai rindo - mas, entretanto você tem um trabalho menor que deve ser terminado primeiro. Seu Latim precisa melhorar (ou assim me foi dito), para propósitos escolares. E bolsas de estudos são úteis de muitas maneiras, especialmente para gente como você e eu, que se dedicam a assuntos antiquados. Seu primeiro teste da Latin é neste inverno, lembre-se.
- Quisera eu que a prosa em Latim não fosse uma matéria tão importante - suspirou Alboin - eu sou realmente muito melhor em versos.
- Não vá colocar qualquer pedaço de seu Eressëano, ou Latim-élfico, ou como quer que seja a maneira pela qual você chame isto em seus versos de Oxford. Eles poderiam passar por um exame minucioso, mas não passariam pelo crivo da seriedade de nenhum de seus professores.
- Claro que não! - disse o menino, enrubescendo - O assunto era muito privado, e não costumava ser objeto nem mesmo de piadas particulares.
- E não vá tagarelando a respeito de Eressëano fora da sociedade - Alboin implorou - ou vou desejar ter mantido isto como um segredo apenas meu.
- Bem, você fez agiu corretamente em manter isso em segredo - disse o pai - e suponho que nem mesmo eu teria sabido desse seu hobby se você não tivesse esquecido seus cadernos em meu estúdio. Mesmo assim não sei muito a este respeito. Mas, meu querido rapaz, eu não desejo revelar seus idiomas inventados a ninguém, apenas não desperdice muito tempo neles. Receio estar ansioso a respeito daquela bolsa de estudos, não apenas pelos motivos mais elevados. Dinheiro vivo não é algo muito abundante.
- Oh, eu não fiz nada desse tipo por um longo tempo – disse Alboin – pelo menos, quase nada.
- As idéias não estão correndo bem, então?
- Ultimamente não - confessou Alboin - porém isso pode ser devido a meus estudos, há muito mais tarefas para fazer do que eu tinha quando mais novo. Mas consegui uma porção de novas palavras divertidas alguns dias atrás: Estou certo de que lomelindë significa rouxinol, por exemplo, e certamente lomë significa noite (entretanto não escuridão). O verbo está ainda muito incompleto, mas - ele hesitou, reticência (e consciência intranqüila) estavam em guerra com o seu hábito do que chamava 'sociedade com o pai', e o desejo dele para confessar o segredo de qualquer maneira - mas, a real dificuldade é que outro idioma está surgindo junto com o Eressëano. Parece ser relacionado, mas bastante diferente. Por exemplo: descobri que Alda significa árvore; no idioma novo é árvore é galadh, e orn. O Sol e Lua parecem ter nomes semelhantes em ambos: Anar e Isil ao lado de Anor e Ithil. Eu gosto primeiro de um, então o outro, de modos diferentes. Chamei essa língua de Beleriândico, e é na verdade muito atraente; mas complica as coisas.
- Meu bom Senhor - exclamou seu pai - isto é sério! Mas vou respeitar segredos solicitados. Então aqui nos separamos - ele se levantou - vou ler um pouco e chamarei quando pensar que você deve ir para cama.


Um dos contos inacabados de Tolkien figurou-se como uma nova reviravolta tanto na lenda de Atlantes quanto em sua história n’O Silmarillion chamada Akallabêth, que é a sua versão da lenda de Atlantes. Ele intitulou esse conto The Notion Club Papers. No início da história, dois dos membros do Notion Club vão encontrando memórias de um passado distante.

A criação do Um Anel remonta aos anos seguintes a queda de Morgoth. Durante essa época, Sauron estabeleceu seu desejo de dominar e submeter os Elfos, e de fato todos os povos da Terra-média, a seu completo controle. Ele acreditava que Valar haviam, afinal, abandonado a Terra-média após a queda de Morgoth.
