|
09 Janeiro 2005
A história da Terra-média compreende muitas centenas de milhares de anos repletos de histórias fascinantes. Graças a essas sagas descobrimos os encantadores contos de Beren e Lúthien, de Eärendil, o Marinheiro e Bilbo e Frodo Bolseiro.
Mas quem nos presenteou com essas histórias? Quem são os grandiosos autores das baladas e anais que o professor Tolkien traduziu para o inglês, recontando essa época grandemente perdida? Durante a Primeira, Segunda e Terceira Eras do Sol, elfos, homens e hobbits mantiveram registros de sua história nas formas de anais, baladas, sagas e biografias. De modo diverso em relação a muitas outras culturas, os nomes de muitos desses "cronistas" sobreviveram através dos séculos. O principal motivo disso talvez seja que muitos autores assinavam seus nomes nos documentos e até mesmo creditavam suas fontes. Abaixo discutirei o pouco que sabemos a respeito dos maiores cronistas e suas obras.
-
Rúmil de Valinor
-
Pengolod de Gondolin
-
Quennar i Onotimo
-
Dírhavel o Ælfwine da Bretanha
-
O Livro Vermelho e seus autores
-
Os Livros de Sabedoria
-
Carta a Respeito da Transmissão das Lendas
RÚMIL DE VALINOR
Rúmil é um dos mais antigos cronistas conhecidos, e aparecera nos textos mais antigos. O significado do nome é desconhecido, mas pode ser conectado com a palavra Noldor rum: "segredo; mistério" [1]. Rúmil era um noldo filósofo que vivera em Valinor na cidade de Tirion. Era chamado Elfo Filósofo de Valinor [2] e Sábio Ancião de Tirion [11], e escreveu muitos documentos que diziam respeito especialmente a Valinor. Muito da ciência histórica eldarin parece ser baseado nas obras de Rúmil. Um de seus mais famosos trabalhos é a Ainulindalë que relata a Música dos Ainur e normalmente consiste na parte introdutória ao Quenta Silmarillion [3].
Cogita-se que Rúmil abandonara sua profissão como filósofo, posteriormente (considerando a improbabilidade de sua morte em Valinor), visto que muitos textos referem-se freqüentemente a ele como um mestre que partira há muito tempo. Há uma obra chamada I Equessi Rúmilo ("Os Provérbios de Rúmil") que é uma coleção de seus pensamentos dos primeiros dias dos eldar em Valinor. Trata, entre muitas coisas, do idioma Valarin [11]. O título poderia implicar que ele alcançara um status similar ao de Sócrates, e ele era cercado de discípulos que escreviam seus ditados (semelhante aos Diálogos de Platão). O que confirma a grandiosidade de Rúmil como um cronista é que no Ano dos Valar 1179 ele inventou um alfabeto: Os Tengwar de Rúmil [4], oportunamente chamados Sarati [11]. Este é o mais velho alfabeto conhecido em Arda, e onde Fëanor se inspirou quando desenvolveu os Tengwar de Fëanor, que posteriormente viria a ser usado por quase todos os povos na Terra-média.
Um documento de especial interesse para os historiadores é um texto chamado Anais de Aman (ou Anais de Valinor). O documento reconta os eventos de cada anos em Valinor até a criação do Sol e da Lua e pode ter sido uma das origens para o Quenta Silmarillion. Em um manuscrito, Rúmil é apontado como autor dessa obra. Entretanto, em outro Rúmil simplesmente o iniciou e escreveu até a Maldição dos Noldor no Ano dos Valar 1496 [4]. Nesse ponto ele parou, porém outros continuaram [5]. Para isso pode haver duas explicações: 1) Ele não seguiu a Casa de Fëanor em direção à Terra-média, mas ficou sabendo das aventuras dos noldor que partiram de Túna mas retornaram, ou 2) Ele próprio partiu com a hoste de Finarfin e retornou com ele quando ouviu a condenação ameaçadora. Rúmil possuía, também, interesse em idiomas e aprendera - de acordo com uma fonte (infeliz e ordinariamente errônea) [7] - muitos idiomas. Ele escreveu alguns ensaios a respeito dos idiomas dos elfos, e Pengolod, o Sábio (veja abaixo) leu esses textos e os utilizou em um de seus trabalhos [8].
Quando Pengolod chegou em Valinor na metade da Segunda Era, Rúmil leu o Quenta Silmarillion de Pengolod e fez pequenas adições a ele, tais como os nomes verdadeiros de Mandos e Lórien: Námo e Írmo [9]. Rúmil não é citado em nenhuma outra narrativa e não se sabe o que lhe aconteceu em eras posteriores. Não parece que ele esteve em Tol Eressëa, posto que Ælfwine, muito tempo depois, não o conheceu ali, mas lera seus documentos. Pengolod definitivamente estava ali, e contou a Ælfwine muitas histórias, entre elas a Ainulindalë de Rúmil [10]. E provável que ele permanecera em Tirion sobre Túna, e ali ainda vive.
Referências Bibliográficas:
[1] The History of Middle Earth, vol. I, Appendix.
[2] The History of Middle Earth, vol. IV, The Earliest Annals of Valinor
[3] O Silmarillion, Glossário
[4] The History of Middle Earth, vol. X, The Annals of Aman
[5] The History of Middle Earth, vol. V, The Later Annals of Valinor
[6] O Silmarillion, cap. "Da Fuga dos Noldor"
[7] The History of Middle Earth, vol. I, The Music of the Ainur
[8] The History of Middle Earth, vol. V, The Lhammas
[9] The History of Middle Earth, vol. X, The Later Quenta Silmarillion
[10] The History of Middle Earth, vol. X, Ainulindalë
[11] The History of Middle Earth, vol. XI, Quendi and Eldar Appendix D
PENGOLOD DE GONDOLIN
Quando da queda de Gondolin, Pengolod conseguiu escapar das criaturas de Morgoth junto com Tuor e Idril, e os seguiu até os Portos do Sirion [4]. Trouxe com ele um punhado de antigos documentos de valor e obras de sua própria autoria. Os Portos do Sirion naquela época havia se tornado um refúgio para exilados de Doriath, Hithlum e outras regiões de Beleriand. Graças à silmaril de Eärendil, houve um breve período de paz no refúgio. Uma vez que Pengolod, até aquele instante, evitara juntar conhecimento de fora das fronteiras de Gondolin, ele subitamente tornou-se bastante ativo e iniciou muitas pesquisas. Então ele obteve informação sobre o sistema rúnico usado em Doriath, inventado por Daeron. Essas runas eram raramente usadas e tornar-se-iam ainda mais raras nas Eras por vir. Mas Pengolod fez cópias e sínteses de documentos usando esses caracteres, e, então, fez uma grande contribuição cultural a fim de que as Certhas Daeron (como ele as chamava) não fossem completamente esquecidas [5].
Os sindar de Doriath trouxeram os Anais de Beleriand, ou Anais Cinzentos, aos Portos, onde tornaram-se mais extensos, graças ao auxílio de outros povos [10]. Pengolod provavelmente contribuiu nessa tarefa, uma vez que sua memória da história era "prodigiosa" [9]. O que é certo, porém, é que ele fez adições e comentários a eles, talvez em sua própria cópia anotada. Os Anais de Beleriand foram, posteriormente, trazidos ao Oeste [10]. Imediatamente após o final da Primeira Era do Sol, foi permitido aos noldor retornar ao Oeste. Pengolod, entretanto, não partiu para Valinor imediatamente. Ele permaneceu na Terra-média muito tempo durante a Segunda Era e obteve mais conhecimento. Foi-lhe permitido morar por um tempo entre os anões em Khazad-dûm, e então provavelmente foi um dos poucos que contemplou os idiomas dos anões: os idiomas escritos e falados.
Quando a Sombra de Sauron se espalhou por Eriador, Pengolod finalmente partiu para o Oeste, para Tol Eressëa na Baía de Belegaer. Ali ele ficou no vilarejo de Tavrobel (também chamado Tathrobel), e continuou a estender os Anais de Beleriand, Nessa época ele deve ter visto, também, as obras de Rúmil sobre idiomas, entre esses os Equessi Rúmilo, e estes ele utilizou para compor o texto chamado Lhammas ("Relato das Línguas"), debatendo as línguas dos homens, elfos e outras raças [9]. Ele compôs, também, um pequeno texto chamado Lammasethen tratando especialmente das línguas élficas [6].
É dado a Pengolod, tradicionalmente, o crédito de ter escrito o Quenta Silmarillion, a obra principal da história mais antiga, mas o que ele realmente fez foi compilar as várias tradições, lendas e histórias em uma só obra contínua. Suas principais fontes foram Rúmil e seus próprios escritos (os Anais, Ainulindalë, etc.), os anais Cinzentos, o Narn I Hîn Húrin, e o Livro Dourado [7]. Rúmil também fez pequenas emendas ao Silmarillion [8]. Quando Ælfwine chegou em Tol Eressëa muitos milênios depois, ele conheceu Pengolod, que contou a Ælfwine muitas das lendas e mostrou-lhe os textos, e tornou-se então, um elo necessário entre os Dias Antigos e épocas históricas.
Referências Bibliográficas:
[1] The History of Middle Earth, vol. IV, The Quenta
[2] O Silmarillion, Apêndice
[3] The History of Middle Earth, vol. IV, The Earliest Annals of Beleriand
[4] The History of Middle Earth, vol. IV, The Earliest Annals of Valinor
[5] The History of Middle Earth, vol. VII, Appendix on Runes
[6] The History of Middle Earth, vol. V, The Lhammas
[7] The History of Middle Earth, vol. V, Quenta Silmarillion
[8] The History of Middle Earth, vol. X, The Later Quenta Silmarillion
[9] The History of Middle Earth, vol. XI, Quendi and Eldar Appendix D
[10] The History of Middle Earth, vol. XI, The Grey Annals
[11] The History of Middle Earth, vol. XI, Quendi and Eldar Editorial Notes
Pouco é sabido a respeito deste elfo misterioso. Embora tenha escrito apenas três obras importantes, esses parecem ter influenciado tanto Rúmil quanto Pengolod. Sua primeira obra, Do Início dos Tempos e seu Cômputo, forma o que seria o começo dos Anais de Aman. Contém inclusive algumas informações a respeito da contagem do tempo em Valinor, o que é interessante, pois os Anais de Aman usam os chamados "Anos dos Valar" [1]. Nos anais de Aman, Rúmil também se utilizou bastante da segunda obra de Quennar, Yenonotie ("Cômputo dos Anos"), que também contém material sobre a contagem do tempo.
A terceira obra de Quennar foi o Conto dos Anos. Esta obra é estreitamente ligada aos anais de Aman e de Beleriand, e em muitas partes é idêntico a esses. É claro que Quennar também leu as obras de Rúmil e de Pengolod, e que estes leram as obras do primeiro, ou que eles leram os trabalhos de cada um e tentaram fazê-los concordes. Mas na verdade, Quennar parou de escrever o Conto no início da Primeira Era do Sol, e Pengolod continuou [2]. Isso parece ser bem estranho. Por que Quennar parara de escrever naquele ponto, e por que Pengolod continuara? Talvez Quennar tenha sido morto pelos orcs na Dagor-nuin-Giliath [4]? Talvez Pengolod herdara a obra de Quennar? Provavelmente nunca saberemos.
Não há uma tradução precisa para o nome Quennar i Onotimo, mas parece que contém os elementos quen "contar, narrar", nam "conto" [3], i "os, as", onot "contar (no sentido de computar)", tim(-o) "da estrela" [5]; isto é, algo como "O Narrador da Contagem de Estrelas". "Contagem de Estrelas" parece particularmente estranho, mas pode ser um conhecimento que se refere à contagem do tempo. Tudo isso é, obviamente, mera especulação.
Fontes:
[1] The History of Middle Earth, vol. X, The Annals of Aman
[2] The History of Middle Earth, vol. XI, The Tale of Years
[3] The History of Middle Earth, vol. XI, Ælfwine e Dírhavel
[4] O Silmarillion, cap. "Da Volta dos Noldor"
[5] The History of Middle Earth, vol. V, The Etymologies
Dírhavel foi um menestrel que compôs somente uma balada em toda sua vida, mas que tornou-se a mais grandiosa e mais memorável de todas as baladas feitas pelos homens em tempos posteriores. Esta é a Narn I Hîn Húrin, a "História dos Filhos de Húrin". Dírhavel (ou Dírhaval) pertencia à Casa de Hador, e provavelmente fugira de Dor-lómin e chegara aos Portos do Sirion. Por causa de sua ascendência ele era deveras interessado nos feitos de sua casa e buscou informações entre todos os refugiados. Então ele conheceu Mablung de Doriath que lhe contou muitas coisas a respeito de Túrin Turambar. Por sorte ele conheceu também um velho chamado Andvír, que era filho de Andróg que foi um membro do bando de proscritos liderados por Túrin.
Ele utilizou a informação que juntara e escreveu em sindarin uma longa balada, de fato a mais longa daquela época, em forma de verso chamada Minlamad thent (ou Minlamad estent). Este modo era em verso falado, relativamente similar à forma aliterativa do inglês arcaico. Narn I Hîn Húrin conta os destinos dos filhos de Húrin, Túrin e Nienor, enfatizando Túrin. É uma história trágica mas a balada foi altamente honrada e glorificada pelos elfos e relembrada por eles. É o único relato completo da vida de Túrin, e todos os textos posteriores no tocante a esse assunto, acabava afluindo na Narn [1].
Infelizmente Dírhavel foi morto quando os filhos de Fëanor finalmente atacaram os Portos do Sirion no terceiro e último fratricídio [2]. O significado do nome Dírhavel é desconhecido. Mas parece conter os elementos dir "vigiar, observar" e el "estrela", mas isso é bastante incerto para se ter qualquer palpite.
Referências Bibliográficas:
[1] The History of Middle Earth, vol. XI, Ælfwine e Dírhavel
[2] O Silmarillion, Glossário
A questão sobre Ælfwine, o navegante que encontrou a Rota Direta e chegou a Tol Eressëa, é, definitivamente, o assunto mais intrincado e complicado entre todos os cronistas. Extraordinariamente, ele é também o único a pertencer à nossa história. Ælfwine era um anglo-saxão, que viveu ba Bretanha durante o século X. Seu nome, no inglês arcaico, significa "Amigo-dos-elfos", um nome não tão incomum naquele tempo. Ele era um descendente muito distante de Eärendil, e possuía, bem como todos os descendentes de Eärendil, o anseio pelo mar em seu sangue [1].
Magia é difícil de definir. Externamente aos trabalhos literários de J.R.R. Tolkien nós não a tomamos seriamente, mas ao contrário a relegamos para as regiões do mito, superstição e sobrenatural. No mundo de Tolkien o que ele chama de magia é real e natural, e nós devemos compreender a natureza de seu mundo.
Em grande parte os detalhes biográficos citados neste trabalho foram baseados ou extraídos inteiramente de informações contidas na biografia oficial do professor Tolkien, escrita por Humphrey Carpenter, editada e publicada no Brasil pela livraria Martins Fontes. Esse material é criação original da BBC inglesa e traduzido no Brasil.
Muitas pessoas pensam em Chivalry como um conceito que vem de histórias e das fábulas sobre espadas, dos cavaleiros e magia da Idade Média. Por ironia, contudo, um dos mais conhecidos contos de espadas e magia não vem de forma alguma da Idade Média, mas sim do século XX... esse é O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien.



