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10 Janeiro 2005
Se os Balrogs possuem ou não possuem asas pode parecer uma questão simples, mas (como acontece com freqüencia nos trabalhos literarios de Tolkien) quanto mais a examinamos, mais parece difícil de responder.
É uma questão, também, que divide os fãs de Tolkien em dois campos distintos: aqueles que creditam em Balrogs com asas e aqueles que negam que as tais asas existam. Este artigo tenta ao máximo ter um ponto de vista objetivo sobre o assunto, mas por sorte atinge uma conclusão suficientemente definida (é melhor dizer, tão definida quanto as evidências o permitem). Se você é um daqueles leitores fanáticos com pontos de vista muito rígidos existe uma boa chance de que este artigo vá desagradá-lo. Mas até isto está bem, pois o objetivo deste longo estudo divagatório não é converter ninguém, mas lançar alguma luz sobre o assunto.
Uma Rápida Digressão
O que é uma Sombra? Antes de iniciar, será útil esclarecermos uma concepção errada. Neste debate, um grande número de referências à sombra aparecerá, e uma porção de pessoas toma este termo em sua concepção moderna - ou seja, uma região de escuridão causada pela luz sendo bloqueada. Este não é o sentido desejado por Tolkien. Quando relacionadas aos Balrogs, suas sombras não são apenas falta de luz, mas uma região de escuridão que eles carregam ao redor de si. Quais seriam exatamente suas qualidades é um ponto debativel, mas certamente ela poderia se moldar em diferentes formas. Estas formas de sombra, de fato, formam o início do debate como um todo.
A Natureza do Argumento
O âmago do debate reside na Sociedade do Anel Cap. 5, A Ponte de Khazad-dûm. Este capítulo é construído ao redor do desastrado encontro da Sociedade com um Balrog conhecido apenas como a Perdição de Durin, a mesma criatura que expulsou os Anões de sua antiga casa séculos atrás. Em particular, duas referências levantam a discussão. A primeira ao descrever o balrog do ponto de vista de Gandalf:
[1] "Seu inimigo parou novamente, encarando-o, e a sombra ao redor dele estendeu-se como duas grandes asas". Sociedade do Anel Cap. 5, A Ponte de Khazad-dûm.
Por si mesmo, este trecho não é particularmente controverso. A sombra escura do balrog assumiu uma forma que parecia de certa modo com algum tipo de asas. O fato é que como asas explicitamente não pode literalmente descrever asas reais.. O problema se inicia, contudo, com outra referência que aparece dois parágrafos depois:
[2] "... repentinamente ele adiantou-se em grande altura, e suas asas estenderam-se de parede a parede..." Sociedade do Anel Cap. 5, A Ponte de Khazad-dûm.
Estas provavelmente são as mais debatidas palavras que Tolkien jamais escreveu. Parece estranho a princípio, porque de fato as maiorias das pessoas concordam que o significado não é particularmente ambíguo, e seria bastante óbvio o que o trecho significa. A disputa começa, contudo, com um fato curioso: com uma ilusão óptica, este trecho tem duas interpretações óbvias. Seja o que for que você imagine-o significar, e quão certo você esteja, sempre existe uma porção de pessoas que o enxergam de forma diferente.
Para um grupo de leitores. "suas asas estenderam-se de parede a parede" (2) relaciona-se imediatamente com o anterior "a sombra ao redor dele estendeu-se como duas grandes asas" (1). Para eles o trecho apenas reforça seu enunciado precedente, e não diz nada sobre nenhum outro tipo de asas. No lado oposto do debate, "suas asas estenderam-se" (2) não é relacionado ao enunciado precedente de nenhum fora. Ao contrário, é uma referência definitiva às asas reais, físicas do Balrog.
O debate normalmente enfoca-se em argumentos sobre quais destas duas interpretações óbvias seria a correta. É possível, contudo, que nenhuma dela seja explicitamente correta: como você lê a passagem depende de como você já presume que o Balrog se pareça. Não estamos tentando provar nada a este ponto, apenas mostrando a estrutura da sentença que sustenta ambas as interpretações. Uma forma de fazer isto é substituir as disputadas "asas" com outros termos de status mais exatos.
Vamos começar com "braços". Não existe nenhuma dúvida de que Balrogs tenham braços - é tão óbvio que pareceria estranho ter que mencioná-los. Agora, imagine que Tolkien tenha escrito "a sombra ao redor dele estendeu-se como dois grandes braços". Isto continua obviamente semelhante, como o texto original (1). Se ele seguisse logo após "seus braços se estenderam", pareceria natural ler a segunda referência como se referindo aos seus braços reais, não seus braços de sombra, mesmo imaginando que nos foi dito que ele teria "braços" de sombra. Assim é como a facção pró-asas vê o texto, porque eles assumem que os Balrogs têm asas, assim como inquestionavelmente possuem braços reais.
Nós podemos simular uma visão alternativa com "tentáculos". Não existem absolutamente nenhumas evidências sobre tentáculos de Balrogs, e é seguro presumir que eles não faziam parte de nenhuma parte da anatomia dos Balrogs. Novamente, "a sombra ao redor dele estendeu-se como dois vastos tentáculos", a interpretação natural é levemente diferente. Nós sabemos com certeza que não existem tentáculos reais nos Balrogs, então a leitura do trecho é muito mais fácil como se referindo ao similar anterior: deve significar "tentáculos de sombra". Esta é a posição anti-asas: porque eles assumem que os Balrogs não possuem asas reais, eles naturalmente vêem "suas asas" como uma extensão da passagem anterior.
Uma vez que não vemos nada decisivo na estrutura da sentença, segue-se que os argumentos baseados nesta passagem apenas acabam sendo circulares. De um lado: "Assumindo que Balrogs tenham asas reais, a passagem deve ser lida literalmente, uma vez que balrogs têm asas reais". De outro lado: "Assumindo que Balrogs não têm asas, então a passagem deve ser lida figurativamente, uma vez que Balrogs não têm asas reais". Isto não ajuda muito, mas afortunadamente "suas asas estenderam-se de parede a parede" (2) não é a única evidência a considerar. Vamos observar os demais casos a favor, e contra, asas reais de Balrogs.
O caso a favor das asas dos Balrogs
Tendo estabelecido que "suas asas estenderam-se de parede a parede" (2) não pode ser realisticamente usado como um argumento contra (ou a favor) de asas reais, nós podemos proceder para ver onde mais evidências podem ser produzidas.
Argumento Um
Suas Asas de Estenderam-se de Parede a Parede
É uma característica do debate que está passagem flexível reapareça muito regularmente nos argumentos pro-asas, seja quais forem os contra-argumentos que sejam colocadas contra ela. Aqueles que a propõem como prova a consideram literalmente e não-ambígua, e que não pode ser interpretada de outro modo. Esta posição não consegue permanecer de pé ante uma análise detalhada. Não é claro, por exemplo, como uma paisagem que tem sido sujeita a anos de debate pode ser não-ambígua. Muito mais interessante, contudo, é a afirmação de que ela deva ser entendida literalmente. Isto presumivelmente significa que Tolkien escreveria "suas asas de sombra estenderam-se", ou algo do tipo, se fosse isso que ele queria dizer. Considere o seguinte, contudo:
[3] "Gandalf veio voando escada abaixo e caiu no chão no meio da Companhia" Sociedade do Anel Cap. 5, A Ponte de Khazad-dûm
Isto ocorre apenas algumas páginas antes do encontro de Gandalf com o Balrog, e de fato seu significado é óbvio: Gandalf foi jogado escada abaixo pela força acima. Esta é uma metáfora: ninguém vai afirmar que Gandalf literalmente "voou". O texto, contudo, não diz: "Gandalf deu a impressão de vir voando", ele diz inequivocamente que "ele veio voando". Aqueles que insistem em uma leitura literal da passagem (1) logicamente devem insistir em uma leitura literal desta passagem também. A única conclusão consistente é que, se "suas asas estenderam-se de parede a parede" (2) prova que os Balrogs têm asas, então "Gandalf veio voando escada abaixo" (3) prova que Gandalf não apenas podia voar, mas escolheu aquele momento para mostrar seu talento.
Argumento Dois
Com Velocidade Alada - With Winged Speed
Dada a profundidade do debate deste assunto, pode ser surpreendente que "suas asas estenderam-se" (2) seja a única evidência canônica definida sobre asas de Balrogs. Existe, contudo, uma passagem no The History of Middle-earth que geralmente é citada como suporte a esta evidência. Aqui está ela:
[4] "Rapidamente eles se levantaram, e passaram com velocidade alada [winged speed] sobre Hithlum, e chegaram a Lammoth como uma tempestade de fogo." The History of Middle-earth Volume X (Morgoth"s Ring), The Later Quenta Silmarillion: Of the Rape of the Silmarils
"Eles" são os Balrogs que apressaram-se para salvar Melkor de Ungoliant imediatamente após seu retorno para a Terra-média. Este texto não aparece no Silmarillion publicado: pertence a uma variante não-publicada, freqüentemente dita ter prioridade canônica sobre a edição publicada. Para escapar a intermináveis debates sobre canonicidade e prioridade, assumiremos que ele tem prioridade para os propósitos deste argumento. Sem levar em consideração seu status canônico, é incerto como ele representaria prova de algum tipo: "com velocidade alada [with winged speed]" é indubitavelmente uma metáfora para "muito rapidamente" (e isto fica ainda mais claro na tradução para o português). Parece existir alguma dúvida sobre isto aqui está o que o dicionário tem a nos dizer:
[5] "metáfora s. aplicação de um substantivo ou termo descritivo ou frase a um objeto ou ação ao qual ele é imaginativamente mas não literalmente aplicável" The Concise Oxford Dictionary of Current English
Em outras palavras, a não ser que "velocidade" possa literalmente ter asas (o que claramente não é o caso), "com velocidade alada" é uma metáfora. Como antes, podemos esclarecer a estrutura da sentença extraindo os balrogs (cuja natureza está em questão), e substituindo por termos mais definidos. Primeiro imagine que o parágrafo seja sobre Águias (que nós sabemos ter asas e podem voar), ao invés de Balrogs: não existe dúvida que "[as Águias] passaram com velocidade alada sobre Hithlum" tem um sentido perfeito.
Tolkien foi muito original quando escreveu a lenda da criação dos elfos. Em sua mitologia os primeiros elfos ficaram conheçidos como os não-nascidos, porque de fato não haviam nascido de mulheres. Os primeiros elfos apenas despertaram para a vida as margens do lago Cuiviénen, quando não havia sol no mundo.

Se os Balrogs possuem ou não possuem asas pode parecer uma questão simples, mas como acontece com freqüencia nos trabalhos literarios de Tolkien, quanto mais a examinamos, mais parece difícil de achar qualquer resposta. É uma questão, também, que divide os fãs de Tolkien em dois campos. Os que acreditam, e os que não acreditam.

As terras de Rhún e Harad, ao Leste e Sul da Terra-média, não ficavam apenas geograficamente fora da vista Ocidental. Estas regiões nunca haviam sido do interesse dos Elfos cujas histórias tratavam principalmente de si mesmos, nem do interesse dos Númenorianos que não avançaram no interior.

