tolkien_02O título deste artigo é uma homenagem ao célebre livro Eram os Deuses Astronautas de Erich Von Daniken, cujo maior legado foi ter nos rendido a criação dos Eternos na Marvel.

O tema da religiosidade dos elfos Tolkienianos e outros povos “fiéis” da Terra-média é sempre muito contencioso e cheio de confusões criadas pelo fato de que, assim como acontece com temas como o Livre Arbítrio x Predestinação e Arda Redonda x Arda Plana, a melhor resposta para essa pergunta em Tolkien é ao mesmo tempo um ambíguo “sim e não” élfico. Afinal de contas os elfos eram politeístas, monoteístas ou o quê? Eles adoravam os Valar ou não? Em primeiro lugar, é preciso frisar que Tolkien deixou bem claro que, sendo Arda o planeta Terra em uma era remota da antiguidade antes da história registrada, que Eru Ilúvatar, o Criador é o deus judaico-cristão como ele mesmo admitiu em uma entrevista de 1971.

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Arcanjo Miguel, o análogo de Manwë Súlimo

 

  • Gerrolt: Há uma característica outonal ao longo do todo de O Senhor dos Anéis, em um caso um personagem diz que: “a história continua, mas eu pareço ter perdido o rumo dela”. Porém, tudo está enfraquecendo, empalidecendo, pelo menos em direção ao fim da Terceira Era. Toda escolha tende à violação de alguma tradição. Agora isso me parece ser um pouco como a citação de Tenysson: “a velha ordem muda, dá lugar a uma nova, e Deus se realiza de muitas maneiras”. Onde está Deus em O Senhor dos Anéis?
  • Tolkien: Ele é mencionado uma vez ou duas.
  • Gerrolt: Ele é o Único?
  • Tolkien: O Único… sim.
  • Gerrolt: Você é de fato um teísta?
  • Tolkien: Oh, eu sou um católico romano! Um devoto católico romano.

Então, os Elfos Noldor, tendo recebido o conhecimento sobre Eru por intermédio direto dos Valar e de outros indivíduos que tiveram contato com eles, como acontecia com as diversas divisões dos “elfos” que não foram para Aman, veneravam Eru Ilúvatar e eram monoteístas ainda que na Terra-média isso nunca tivesse se manifestado como um culto organizado.

153 Para Peter Hastings (rascunho)
Porém, não havia templo algum em Númenor (até Sauron introduzir o culto de Morgoth). O topo da Montanha, o Meneltarma ou Pilar do Céu, era dedicado a Eru, o Único, e lá, a qualquer hora privadamente, e em certas ocasiões publicamente, Deus era invocado, louvado e adorado: uma imitação dos Valar e da Montanha de Aman.
Já em Númenor, a adoração a Eru imitava a “matriz” do louvor dado a Eru nas encostas de Taniquetil, sendo o “templo” de Eru, a Meneltarma, a coluna do céu, que foi provavelmente a causa real do afundamento da Ilha, já que de posto congregacional para adoração, ela se transformou em manifestação da ira divina, entrando em atividade vulcânica como descrito no Akallabêth. Mas, então, como é que os elfos entoam cânticos para Elbereth Gilthoniel e suplicam em prece a intercessão dos Valar? Bem, Tolkien comparou a devoção dos elfos aos Valar ao sentimento de Dulia [1] que os católicos têm pelos seus santos, que são, como os Valar, intercessores dotados de poder recebido de Deus (Ilúvatar) poder “delegado” e derivativo que não faz deles onipotentes, por isso não recebendo Latria [2] a adoração genuína que é dada só a Deus na Teologia Católica. Para os católicos, os Santos recebem Dulia, a Virgem, Hiperdulia [3] e a Latria é reservada para a Santíssima Trindade. Esta é uma forma de reverência, mas não de adoração.
Carta 153 de Tolkien Para Peter Hastings (rascunho)
A respeito de “a autoridade de quem decide essas coisas?”. As “autoridades” imediatas são os Valar (os Poderes ou Autoridades): os “deuses”. Mas são apenas espíritos criados — de elevada ordem angelical, diríamos, com seus anjos menores servidores — respeitáveis, portanto, mas não veneráveis*; e apesar de potentemente “subcriativos” e residentes na Terra a qual estão ligados por amor, tendo auxiliado em sua criação e em sua ordenação, não podem, por vontade própria, alterar qualquer disposição fundamental.(...) * Assim, não há templos, “igrejas” ou santuários neste “mundo” entre povos “bons”. Possuem pouca ou nenhuma “religião” no sentido de culto. Por ajuda podem recorrer a um Vala (como Elbereth), como um católico recorreria a um Santo, embora sem dúvida sabendo, assim como ele, que o poder do Vala era limitado e derivativo.
Em suma os Elfos, os Edain, Anões e outros povos fiéis da Terra-média, tinham um “Deus” sim, como os Númenoreanos tinham, era Eru Ilúvatar que, no mundo da Quinta ou Sexta Era passou a ser chamado de Jeová ou Elohim, o Deus Judaico Cristão. A “reverência” que os elfos tinham pelos Valar é análoga (intencionalmente) ao culto dos Santos Católicos em comparação explícita feita por Tolkien, mas os Valar NÃO SÃO “adorados” no sentido que os deuses gregos ou nórdicos o eram, como geradores das almas dos seres criados. Isso é uma prerrogativa só atribuída a Ilúvatar e a mais ninguém.
 
Isso, entretanto, não impediu que homens posteriores (vindos depois da Quarta Era) não cientes dessa distinção, tenham passado a adorar os Valar à revelia deles próprios. No Legendárium de Tolkien, os Valar são os “deuses originais” por detrás dos deuses mitológicos dos diversos panteões da Terra. Isso não refletia a crença no período retratado por Tolkien - por isso lá não haveria “culto” ou religião dos povos fiéis, os praticantes de religião eram idólatras “satanistas” que veneravam Sauron e/ou Melkor - mas passou a ser realidade em eras posteriores do nosso Mundo, que é Arda transfigurada. Conrad Dunkerson definiu isso muito bem e de forma sucinta em um bate boca com Michael Martinez:
“... os Valar eram, ao mesmo tempo, nunca ou sempre “deuses pagãos” dependendo de como nós definimos isto. Desde as primeiras versões da história até as últimas eles foram consistentemente criações de Ilúvatar (portanto NÃO ERAM deuses pagãos) mas também, por vezes venerados como deuses em si mesmos pelos desinformados (daí “deuses pagãos“ em um certo sentido). É errado dizer que essa situação mudou ...”
Aqui vale lembrar que o principal santo cristão é um Anjo e um Santo ao mesmo tempo, sendo o análogo de Manwë: ele é São Miguel Arcanjo. E vale a pena também salienta outra coisa: os Santos se “tornam santos” depois de estarem mortos, eles já são entidades espirituais similares aos próprios anjos. No caso de alguns personagens bíblicos, ao que parece, eles foram arrebatados para o céu ainda antes de desencarnar e, teoricamente, se tornaram entes espirituais por “milagre divino” tipo Enoque e o profeta Elias no Velho Testamento. Uma curiosidade: parece que o Vala Ulmo, tinha seu nome e alguns de seus atributos derivados de um santo católico: São Erasmo, protetor dos marinheiros, também chamado São Elmo, Ulmo ou São Telmo.

Como acontecia com outros dos Valar, ele era um compósito de diversas entidades tutelares do mar, em várias mitologias, combinadas com um santo católico. Além das já bem conhecidas, Poseidon, Netuno e o Nyord escandinavo uma influência bem proeminente era o irlandês/galês, Manannan Mac Lir.

Paulo Eduardo Lages
31 de outubro de 2009

Notas Explicativas

  1. No cristianismo Dulia (do grego ???????, “douleuo” que significa “honrar”) é um termo teológico que significa a honra o e culto de veneração devotados aos santos. A veneração especial devotada a Maria chama-se hiperdulia (???????????). É praticado pelas Igrejas Católica, Ortodoxa e alguns grupos da Igreja Anglicana.
  2. Do grego (???????, “latreuo” que significa “adorar”) a latria é um termo teológico utilizado pelas Igrejas Católica e Ortodoxa que significa o culto de adoração devida e dada somente a Deus, ou seja, à Santíssima Trindade.
  3. Hiperdulia (do grego ???????????) é um termo teológico utilizado pelas Igrejas Católica e Ortodoxa que significa a honra e o culto de veneração especial devotados a Nossa Senhora.

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A Queda de Gondolin
A narrativa da Queda de Gondolin é, sem dúvida nenhuma, um dos mais antigos textos da Mitologia Tolkieniana. Não sei exatamente quantos, mas acredito que a forma original deste texto foi desenvolvida por Tolkien à mais de 40 anos atrás, quando ainda se reunia aos Inklings e lecionava na faculdade de Oxford.

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O Senhor da Alta-Fantasia
O tema de fundo do Senhor dos Anéis é o desejo de Poder exercitado através do domínio, o desejo devastador em nível tanto individual como social. Antes de tudo, o poder ofende e corrói a mente. Quem é vítima dele pesa cada coisa com extremo cuidado sobre a balança de sua própria maldade. Um modo de agir típico de mentes calculistas e um tanto paranóicas.

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Os Arquétipos no SdA
Um episódio muito importante do mito com relação a Gandalf é a sua confrontação com o Balrog na escuridão das minas de Moria. É muito interessante perceber que o seu medo e recusa na escolha do caminho de viagem pelas minas representa o medo da psique inteira ao se encontrar com dificuldades.
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