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05 Maio 2010
Nunca houve um livro mais mal-interpretado no século XX do que O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien. Seus detratores afirmam que é um livro muito mal escrito, sem a angst de um Wagner, com insinuações homossexuais, uma pura babaquice de criança, uma historinha da carrochinha com duendes e elfos.
Com tudo isso, terminavam na mais interessante das conclusões: mais um negócio que prova o seguinte ditado: a cada minuto nasce um otário. Mas o pior mesmo são justamente os seus defensores, fãs que levam o mundo que Tolkien criou durante sessenta anos à uma realidade que nunca existiu, fantasiosa, um meio para a fuga da vida que se transforma em estéril fanatismo e em tudo o que seu criador não queria. Nem Finnegans Wake teve essa sorte. Pelo menos, seus (poucos) leitores sabiam que tudo aquilo era um sonho, uma alucinação de trocadilhos que, somente depois de mil e uma leituras, se tornava a famosa aventura da linguagem que Joyce pretendia.
Mesmo com a estréia da adaptação cinematográfica de Peter Jackson, um projeto gigantesco com milhões de merchandising envolvidos, a confusão em torno de The Lord of the Rings, como o livro é conhecido por seus seguidores no mundo inteiro, ainda impera.As livrarias lotam de pessoas que compram os tomos de 1.500 páginas, com os olhos esbugalhados, perguntando aos vendedores - Qual é a história deste livro? E o vendedor, para explicar até para si mesmo o fato daquele mastodonte ter virado best-seller, fala que é sobre um hobbit chamado Frodo Bolseiro, que tem de destruir um Anel que dará a Sauron, o senhor dos anéis do título, um poder ilimitável sobre a Terra-média, mundo que, na verdade, não é uma fantasia paralela, mas a Europa de cinco mil anos atrás, muito antes da humanidade pensar em Platão, Aristóteles e Jesus de Nazaré. O que Tolkien desejava com esse fiapo de história é o xis da questão e a origem de toda a desinformação que ronda a sua obra. A sua intenção, desde que participou da Primeira Guerra Mundial, e esboçou a idéia do livro que se tornaria O Silmarillion, era criar um novo mito, e um mito que o pudesse se aproximar da verdadeira Criação.
Para isso, temos de conhecer ninguém menos que o próprio Tolkien. Jonh Ronald Reuel Tolkien nasceu na África do Sul, na vila de Bloemfontein, no dia 3 de janeiro de 1892, filho de Arthur e Mabel Tolkien. A orfandadade atingiria o garoto quatro anos depois, com a morte do pai em 1896, por causa de uma febre reumática, contraída em Bloemfontein enquanto o resto da família já havia imigrado para Birmingham, na Inglaterra. Ronald e seu irmão, Hilary, foram educados pela família da mãe, e foi mais ou menos nessa época que o pequeno Tolkien começou a se interessar pela arte de histórias - lia contos de cavaleiros, lendas de dragões e muito Hans Christian Andersen. É durante a primavera de 1900 que Mabel Tolkien toma uma decisão que irá influenciar a vida de todos ao seu redor, inclusive a do seu filho Ronald: decide se tornar católica, o que provocou a fúria instantânea no avô de Tolkien, metodista empedernido. As dificuldades financeiras e a pressão da família levaram Mabel ao esgotamento físico, agravado por uma diabetes fulminante que, mal-cuidada, a fez falecer no dia 14 de novembro de 1904.
Duas coisas ampararam o jovem Jonh Ronald da perda devastadora: a religião e a descoberta das línguas, especialmente a galesa. E se não fosse pelo padre Francis Morgan, grande amigo de sua mãe, ele nunca conheceria a mulher que seria sua esposa até o fim da vida: Edith Bratt. Morgan pôs os dois irmãos numa pensão sombria na Duchess Roas, 37, e foi lá que Tolkien conheceu Edith, uma moça bonita, baixa, esguia e de olhos cinzentos, além de ser dois anos mais velha que Ronald.
A história de amor entre J.R.R. Tolkien e Edith Bratt mostra a determinação de um autor que criaria uma dos personagens mais determinados da literatura, Frodo Bolseiro. Prestes a ganhar uma bolsa de estudos pela Universidade de Oxford para o curso de filologia (então Tolkien já tinha escolhido o estudo das línguas como seu meio de vida), Ronald era pressionado pelo padre Morgan a não ver mais Edith até que entrasse na maior idade. Durante quatro anos, Tolkien só se correspondeu com Edith por cartas, e o que era uma aventura amorosa de dois jovens se tornou um romance frustrado, com todas as pieguices e impossibilidades que levam este tipo de romance, por mais impossível que pareça, à perseverança que mantém o espírito vivo. Como os obstáculos fazem parte desse tipo de história, Tolkien, ao voltar de Oxford, escreveu uma carta apaixonada a Edith, pedindo-a em casamento (Quanto mais até que possamos nos unir diante de Deus e do mundo? - ele perguntava com aquela impaciência típica dos amantes) sem saber que ela iria casar-se com um outro homem chamado George Field.
Antes que o leitor pense que Tolkien enfrentou Field em um duelo, é bom esclarecer que a única coisa que Ronald fez foi voltar para Birmingham, encontrar com Edith e, depois de uma conversa de duas horas, convencê-la a desistir do casamento com George Field. Jonh Ronald não era um temperamento vulcânico, romântico ou mesmo intenso. Era o sujeito mais calmo de Oxford, e seu maior desejo era escrever poemas sobre mitos gaélicos e germânicos. Adorava se reunir com seus amigos, beber cerveja, fumar um cachimbo, recitar versos de Sir Gawain and The Green Helmet (sua obra favorita, junto com Beowulf). Era Bilbo Bolseiro em pessoa, e sua tranqüilidade no Condado em Oxford só poderia acabar com a Primeira Guerra Mundial.
A experiência da guerra foi crucial para Tolkien. Pela primeira vez, ele se confrontava com o rosto da morte. Antes de embarcar para França, como membro do 13° Batalhão, casou-se com Edith numa quarta-feira do dia 22 de março de 1916. O mesmo batalhão foi dizimado na Batalha do Somme, e Tolkien, que não foi para a linha de fogo, mas contraiu a febre das trincheiras, ficou acamado durante dias numa enfermaria do exército, e foi lá que, com a história de Beren e Lúthien, ele deu início à sua mitologia, num livro que só chegaria nas mãos do público mais de sessenta anos depois, com o título de O Silmarillion.
Mas foi somente em 1934 que J.R.R. Tolkien pôde dar o primeiro fruto de sua mitologia - um fruto tímido, diga-se de passagem. Até então, O Silmarillion era um punhado de páginas desconexas, reunidos sob o vago nome de O Livro dos Contos Perdidos, e somente a história de Beren e Lúthien o satisfazia plenamente. Era o conto em que contava o que acontecera com ele e Edith, com toda uma linguagem pomposa disfarçando o mito. Não foi à toa que Tolkien, já velho, pediu ao seu filho Christopher, que o enterrasse com Edith com as lápides escritas somente Beren (para Ronald) e Lúthien (para Edith).
E foi o mesmo Christopher, atualmente o homem que comanda o espólio do pai, o grande responsável pela criação de Bilbo Baggins. Tolkien queria contar uma história ao seu primogênito, mas uma história de sua própria pena. Foi então que, numa noite, entre uma baforada e outra de cachimbo, escreveu a seguinte frase: "Num buraco vivia um hobbit". Que raios era um hobbit? Então veio a imagem de um ser pequeno, peludo, fumante inveterado de cachimbo que se envolve numa odisséia insólita em que se confronta com um dragão e com um outro ser chamado Gollum, e acaba encontrando um anel mágico. O Hobbit foi lançado em 1937, com estrondoso sucesso nas vendas de Natal, transformando-se em um clássico da literatura infanto-juvenil. É um livro claramente escrito para crianças, com uma trama mais ou menos elaborada, personagens superficiais, com uma prosa límpida e clara, mas sem nenhuma amostra que foi feita por um erudito de Oxford. Até hoje, O Hobbit é responsável pelo grande número de confusões envolvendo O Senhor dos Anéis, pois, em primeiro lugar, todos acham que o segundo é uma continuação do primeiro, já que Bilbo volta a aparecer e descobrimos a verdadeira natureza do anel. No entanto, é um outro grande engano: "O Senhor dos Anéis" não é sequer uma continuação da mitologia que Tolkien pretendia criar - ele é o relato do fim daquele mundo em particular, o mundo de magia que cerca a Terra-média.
O Hobbit era um mero apêndice numa saga que nunca teve a intenção de ter um final feliz. Tolkien sabia que, para um mito ser verossímil, uma dose de tragédia era necessária. E toda a tragédia envolve personagens que confrontam suas vontades individuais com as leis divinas - o que significava, para Tolkien, católico e papista devoto, um homem profundamente religioso, que seu mito lidaria com o velho e bom tema da batalha do Bem contra o Mal.
Tolkien foi muito original quando escreveu a lenda da criação dos elfos. Em sua mitologia os primeiros elfos ficaram conheçidos como os não-nascidos, porque de fato não haviam nascido de mulheres. Os primeiros elfos apenas despertaram para a vida as margens do lago Cuiviénen, quando não havia sol no mundo.

Sempre fui fascinado por Tom Bombadil como ele aparece em O Senhor dos Anéis, provavelmente não devido ao seu papel pequeno, mas por causa da imagem misteriosa e enigmática deixada por este personagem. É por isto que escolhi, dar a minha opinião no círculo de debate. A pergunta é: quem ou o que é Tom Bombadil ?

A criação do Um Anel remonta aos anos seguintes a queda de Morgoth. Durante essa época, Sauron estabeleceu seu desejo de dominar e submeter os Elfos, e de fato todos os povos da Terra-média, a seu completo controle. Ele acreditava que Valar haviam, afinal, abandonado a Terra-média após a queda de Morgoth.

