houghtonO legendário de Tolkien constitui, entre outras coisas, uma revalorização do cavalheirismo medieval em face da desvalorização deste da Grande Guerra. A cultura americana já fornecera uma crítica do cavalheirismo do século XIX em resposta à Guerra Civil, como exemplificado pelo Ataque de Pickett na Batalha de Gettysburg.
 
A revalorização de Tolkien é a mais efetiva, mas por nenhum meio a única instância da renovação cavalheiresca pós-Primeira Guerra Mundial (na verdade, há mesmo qualquer número de exemplos americanos); em seu tratamento da Batalha de Maldon em The Homecoming of Beorthnoth Beorthelm's Son e seu ensaio anexo Ofermod Tolkien, todavia fornece uma crítica de cavalheirismo, destinada (ostensivamente) não à Grande Guerra, mas à Carga da Brigada Ligeira na Batalha de Balaklava na Guerra Criméia. A restauração de Tolkien do cavalheirismo entrou em nossa cultura popular, mas sua crítica deste não tem sido igualmente efetiva.
 
Sob nossa rubrica de "Tolkien como um Portal de Entrada para Estudos Medievais" eu quero considerar não a incumbência principal de estudos medievais (que considero ser a investigação das Eras Medievais simplesmente como assunto de interesse em si), mas a questão secundária, Estudos Medievais como a investigação da recepção, apropriação e reutilização das Eras Medievais por períodos posteriores, e particularmente aqueles que têm o maior impacto em nós. O exercício aqui não é amplificação analítica ou histórica de Tolkien: na verdade, considero que todos os pontos de crítica literária que eu pretendo fazer estão bem-estabelecidos na comunidade de estudiosos, particularmente em livros tão recentes como Tolkien and the Great War de John Garth [1] e Bloody Good de Allen Frantzen. [2] Preferencialmente, o assunto é como aspectos do pensamento de Tolkien estão — ou, neste caso, como um aspecto significante de seu pensamento não está — influenciando a cultura a nosso redor.
 
A forma particular de medievalismo da qual eu quero falar a respeito é o cavalheirismo, não na forma atenuada, e eu suponho agora quase extinta, de segurar as portas e tirar o chapéu em conversa com uma dama, mas ao invés disso da forma forte, e eu suspeito ainda vigorosa, de uma atitude particular em estado de guerra e mesmo, em alguns casos, uma maneira particular de engajar-se em combate. Esta forma de cavalheirismo é obviamente uma ideia Europeia (e talvez mesmo uma ideia da Europa setentrional) mas é uma ideia que prosperou em nosso lado do Atlântico, e assim qualifica-se como uma reutilização das Eras Medievais com um impacto direto sobre nós.
 
O cavalheirismo neste sentido desempenhou um papel na Guerra Civil Americana, amplamente, mas nem por isso exclusivamente do lado dos Confederados. Para citar somente dois exemplos: por um lado, os oficiais de J.E.B. Stuart relembravam dele como "cavalheiresco" e "um cavaleiro puro" [3]; por outro lado, o tributo de Harvard a seus filhos mortos foi o Ruskinian Gothic Memorial Hall (concluído em 1878). Mas ao lado de tais opiniões positivas de cavalheirismo havia uma crítica daquela atitude medieval. Em 1885, Mark Twain, notoriamente, zombou de Walter Scott — e com ele todo o cavalheirismo romântico — como o barco a vapor naufragado em Huckleberry Finn;o romance Um Ianque na Corte do Rei Arthur de 1889 de Twain é ainda mais explícito em sua condenação do mundo cavalheiresco aristocrático. Mas a zombaria de Twain não extinguiu o instinto cavalheiresco, que ainda estava disponível para uso em resposta à Primeira Guerra Mundial: minha própria escola de ensino médio, a Culver Military Academy, poucas milhas ao sul em Indiana — uma escola cujo primeiro superintendente havia sido um Coronel Confederado, um daqueles presentes em Appomattox — comemora seus homens de Estrela Dourada da Grande Guerra com o Culver Legion Memorial Building, uma cópia do Castelo Herstmonceux em Sussex (este mesmo uma reconstrução do Século XX de uma construção do século XV em tijolo original) embora sem fosso. Similarmente, Harvard, apenas a algumas jardas do Salão Memorial da Guerra Civil, recorda seus mortos da Segunda Guerra geralmente com a Igreja Memorial, porém mais especificamente com uma estátua da Mãe Harvard pranteando seu filho morto, retratado como um cavaleiro em armadura com o escudo Veritas a seus pés.
 
Agora, para não tornar um ponto muito preciso: enquanto Culver estava recordando seus filhos caídos com um castelo entre os milharais, e bem antes que Harvard construísse a Igreja Memorial, de volta a pátria Europeia do cavalheirismo um jovem veterano Britânico, primeiro em sua convalescência, então na OED, e então em Leeds, estava começando a escrever a história da Guerra das Jóias. E se o barco a vapor do cavalheirismo de Walter Scott estava ainda flutuando em Indiana e Massachusetts, a história de Beren e Luthien (e a estrutura completa do mito e lenda que o acompanha) resultaria ser não apenas outro reparo ao velho barco a vapor movido a roda de pás do Mississippi, mas sua substituição por uma nova rainha dos mares.
 
A revigoração de Tolkien do cavalheirismo, contudo, é mais matizada do que poucos exemplos Americanos que citei há pouco. Algumas dessas nuanças vêm nos trabalhos principais, como eu espero indicar na conclusão deste trabalho. Mas em sua peça The Homecoming of Beorhtnoth Beorhthelm's Son e seu ensaio anexo Ofermod Tolkien torna a nuança particularmente clara: de fato, como Twain, ele faz uma crítica explícita do cavalheirismo, e o faz em parte com referência ao século dezenove, embora com uma guerra Britânica, em lugar de uma Guerra Americana em mente.
 
Eu lecionei estes textos tanto em aulas formais quanto informais. [4] As duas peças juntas correspondem a umas trinta páginas de leitura (a peça poderia, naturalmente, ser lida em voz alta na aula), e deveria ser acessível a quaisquer estudantes de ensino médio a quem se poderia pedir que lesse Beowulf ou a própria Battle of Maldon. A peça (precedida por uma introdução histórica de quatro páginas) é um diálogo em verso aliterativo entre dois dos retentores de Beorhtnoth, Tídwald, um homem velho, e Torthelm, um jovem, que foram despachados pelos monges para Ely para trazer de volta o corpo de Earl para o sepultamento. Eles o encontram, sem cabeça, mas ainda com sua espada com cabo de ouro, e o carregam de volta em uma carroça: ao longo do caminho, Torthelm usa a espada para matar um deplorável ladrão de cadáveres; mais tarde, tendo adormecido na cama da carroça, repousado nos restos de Earl, ele ouve a fala famosa de Beorhtwold "Hige sceal þe heardra" em seu sono.
 
É uma história de inocência e experiência: o Jovem Totta tem uma mente cheia de antigos contos — ele diz no início que os olhos do Viking morto lhe recordam os de Grendel; o velho Tída conhece as histórias, também, mas as ouve da perspectiva de alguém que conheceu a guerra — e como um Cristão olhando para trás os pagãos. "Beorhtnoth nós carregamos aqui, não Beowulf" — ele diz em certo ponto — "Não há piras por ele, nem montes empilhados". Critica o fato de Totta matar o ladrão como uma ilusão de heroísmo: foi indigno da espada de Beorhthelm usá-la para matar uma criatura infeliz que teria sido expulsa com um pontapé (podemos recordar Gandalf repreendendo Frodo sobre o papel da compaixão). Mais tarde, quando o homem jovem é cauteloso de usar o corpo de Earl como travesseiro (98), Tida lhe diz que ele consideraria a situação nobre se a ouvisse na linguagem dos poetas em vez de em Inglês claro.
 
Explicando tudo sobre isso em Ofermod Tolkien diz que a peça é um comentário extendido sobre as linhas 88-89 do poema em Inglês Antigo (da se eorl ongan for his ofermode / Alyfan landes to fela laþere deode — que Tolkien traduz: então o conde em seu orgulho dominador na verdade cedeu terreno para o inimigo, como não deveria ter feito). O poema original, diz, tem sido mais comumente considerado como um comentário sobre as linhas 312-313, as linhas "Hige sceal þe heardra, heorte þe cenre, / mod sceal þe mare, þe ure mægen lytlað" — que ele traduz na peça: "O coração será mais ousado, mais firme será o propósito / mais orgulhoso o espírito como nosso poder diminui"). Estas linhas, Tolkien argumenta, podem autenticamente expressar um espírito heroico e cavalheiresco, mas o espírito está inevitavelmente comprometido quando uma cultura o recompensa, e o compromisso se eleva ao nível de um defeito de caráter quando o desejo cavalheiresco por honra move um líder desnecessariamente a arriscar as vidas daqueles a seu encargo. Fazer isso não é heroismo na parte do líder (embora a obediência leal de seu povo possa bem ser heróica): é, sim, insensatez. Magnífico, talvez, mas certamente errado. Poetas, Tolkien considera, estão (ao contrário dos retentores leais) acima de ambos cavalheirismo e heroísmo: O poeta de Beowulf critica seu herói por ser "lofgeornost" mais ávido por glória, e assim também o poeta de Maldon critica.
 
O curso formal no qual eu usei estes textos foi "Twice-Told Tales - Contos Duas Vezes Contados" um trabalho sênior eletivo estruturado em torno de leituras paralelas de textos medievais e seus reflexos modernos. Discuti aquela aula em um trabalho na conferência Teaching the Middle Ages (Ensinando a Idade Média) em Emporia, e mais tarde publiquei o trabalho em Studies in Medieval and Renaissance Teaching (Estudos no Ensino Medieval e da Renascença). Nesse curso, não foi de fato Tolkien, mas sim Mark Twain, que nós usamos como um "portal para estudos medievais" — ao menos no sentido que os estudantes tiveram o livro Um Ianque na Corte do Rei Arthur como leitura de verão. Chegamos a peça e ensaio de Tolkien após seis semanas no curso, depois da unidade Arturiana e depois de ler tanto Beowulf quanto A Batalha de Maldon. Nesse contexto, eles serviram para nos trazer de volta ao tema com o qual havíamos começado o semestre, agora em outra chave: nós havíamos visto em Twain a apropriação de Arthur para uma apreciação de apropriação Arturiana do século XIX, a crítica de Jeb Stuart como Galahad, por assim dizer; agora, em Tolkien, nós vimos a apropriação do heroísmo do século X para uma crítica não apenas da apropriação do século X da antiga tradição do norte mas também do cavalheirismo moderno.


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