A Era das Árvores

Ascensão e queda de Telperion e Laurelin

Por trás das muralhas das Pelóri os Valar estabeleceram seu domínio na região chamada Valinor; e ali ficavam suas casas seus jardins e suas torres. Nesse território seguro, os Valar acumularam enorme quantidade de luz e tudo de mais belo que fora salvo da destruição. E valinor foi abençoada, pois os Imortais ali moravam e nada desbotava nem murchava; não havia mácula alguma em flor ou folha naquela terra; nem nenhuma decomposição ou enfermidade em coisa alguma que fosse viva pois as próprias pedras e águas eram abençoadas.

E quando Valinor estava pronta e as mansões dos Valar instaladas, no meio da planície do outro lado das montanhas eles construíram sua cidade, Valmar de muitos sinos. Diante de seu portão ocidental, havia uma colina verdejante chamada Ezellohar, Yavanna a consagrou e ficou ali sentada muito tempo sobre a relva verde entoando uma canção de poder na qual expunha o que pensava sobre as coisas que crescem na terra. Nienna, porém, meditava calada e regava o solo com lágrimas. Naquele momento os Valar reunidos para ouvir o canto de Yavanna estavam sentados, em silêncio, em seus tronos do conselho no Máhanaxar, o Círculo da Lei junto aos portões dourados de Valmar; e Yavanna Kementári cantava diante deles, e eles observavam.

E enquanto olhavam viram surgir sobre a colina dois brotos esguios; e o silêncio envolveu todo o mundo naquela hora, não havia nenhum outro som senão o canto de Yavanna. Em obediência a seu canto as árvores jovens cresceram e ganharam beleza e altura; e vieram a florir; e assim, surgiram no mundo as Duas Árvores de Valinor. De tudo o que Yavanna criou ambas são as mais célebres, e em torno de seu destino são tecidas todas as histórias dos Dias Antigos.

Uma tinha folhas verde-escuras, que na parte de baixo eram como prata brilhante; e de cada uma de suas inúmeras flores caía sem cessar um orvalho de luz prateada; e a terra sob sua copa era manchada pelas sombras de suas folhas esvoaçantes. A outra apresentava folhas de um verde viçoso, como o da faia recém-aberta, orladas de um dourado cintilante. As flores balançavam nos galhos em cachos de um amarelo flamejante, cada um na forma de uma cornucópia brilhante, derramando no chão uma chuva dourada. E da flor daquela árvore, emanavam calor e uma luz esplêndida. Telperion, a primeira era chamada, mas Laurelin era a outra, e ambas eram irmãs.

Em sete horas a glória de cada árvore atingia a plenitude e voltava novamente ao nada; e cada uma despertava novamente para a vida uma hora antes de a outra deixar de brilhar. Assim em Valinor duas vezes ao dia havia uma hora suave de luz mais delicada, quando as duas árvores estavam fracas e seus raios prateados e dourados se fundiam. Telperion era a mais velha das árvores e chegou primeiro à sua plena estatura e florescimento; e naquela primeira hora em que brilhou com o bruxulear pálido de uma alvorada de prata os Valar não incluíram na história das horas, mas lhe chamaram de Hora Inaugural, e a partir dela passaram a contar o tempo de seu reinado em Valinor.

Portanto à sexta hora do Primeiro Dia, e de todos os dias jubilosos que se seguiram até o Ocaso de Valinor Telperion interrompia sua vez de florir; e na décima segunda hora era Laurelin que o fazia. E cada dia dos Valar em Aman continha doze horas e terminava com a segunda fusão das luzes na qual Laurelin empalidecia e Telperion se fortalecia. Contudo a luz que se derramava das árvores persistia muito antes de ser levada para as alturas pelos ares ou de afundar terra adentro. E das gotas de orvalho de Telperion e da chuva que caía de Laurelin, Varda armazenava em enormes tonéis como lagos brilhantes que eram para toda a terra dos Valar como poços de água e luz. Assim começaram os Dias de Bem-aventurança de Valinor; e assim começou a Contagem do Tempo.

Porém, enquanto as Eras se aproximavam da hora estabelecida por Ilúvatar para a chegada dos Primogênitos, a Terra-média jazia numa penumbra sob as estrelas que Varda havia criado nos tempos remotos da sua labuta em Eä. E nas trevas habitava Melkor, e ele ainda saía com freqüência sob muitos disfarces de poder e terror, brandindo o frio e o fogo dos cumes das montanhas às fornalhas profundas que se encontram sob elas; e tudo o que fosse cruel, violento ou fatal naqueles tempos é a ele atribuído.

Uma vez aconteceu de Oromë cavalgar mais para o leste em sua caçada e ele se voltou para o norteàs margens do Helcar, e passou à sombra das Orocami, as Montanhas do Leste. E então Nahar começou a relinchar muito e estancou, imóvel. E Oromë se perguntou o que seria e ficou calado. Pareceu-lhe ouvir ao longe no silêncio da terra sob as estrelas o canto de muitas vozes.

Foi assim que os Valar encontraram afinal, como que por acaso, aqueles que por quem há muito esperavam. E Oromë ao contemplar os elfos encheu-se de admiração, como se eles fossem seres inesperados, maravilhosos e imprevistos; pois assim sempre será com os Valar. De fora do Mundo, embora todas as coisas possam ser prenunciadas em música ou previstas em visões remotas, para aqueles que realmente entrem em Eä uma coisa de cada vez os apanhará desprevenidos como algo novo e inaudito.

No início os elfos eram mais fortes e imponentes do que se tornaram desde então; mas não eram mais belos; pois embora a beleza dos quendi nos dias de sua juventude superasse qualquer outra que Ilúvatar tenha feito surgir, ela não pereceu mas vive no oeste, e a tristeza e a sabedoria a enriqueceram. E Oromë amou os quendi e os chamou em sua própria língua de eldar, o povo das estrelas. Esse nome entretanto só foi usado por aqueles que o seguiram na estrada para o oeste. Foi assim que, quando Nahar relinchou e Oromë de fato surgiu entre eles alguns dos quendi se esconderam, e alguns fugiram e se perderam. Mas aqueles que tiveram coragem e permaneceram rapidamente perceberam que o Grande Cavaleiro não era nenhuma forma saída das trevas, pois a luz de Aman estava em seu semblante, e todos os mais nobres elfos se sentiam atraídos por ela.

Oromë demorou-se um pouco entre os quendi e então voltou veloz por terra e mar a Valinor trazendo as notícias a Valmar; e falou das sombras que perturbavam Cuiviénen. Alegraram-se então os Valar, e no entanto sentiam alguma dúvida em meio ao júbilo; e debateram muito qual seria a melhor decisão a tomar para proteger os quendi da sombra de Melkor. Oromë porém, voltou de imediato a Terra-média para morar com os elfos. Em pouco tempo os Valar decidiram ir a guerra contra Melkor, e a oeste dos poderes do oeste marchou para a guerra na Terra-média.

Melkor enfrentou a investida dos Valar no noroeste e toda a região sofreu grande destruição. Mas a primeira vitória dos exércitos do oeste foi rápida e os servos de Melkor fugiram perseguidos até Utumno. Então os Valar cruzaram a Terra-média e montaram guarda para vigiar Cuiviénen; daí em diante os quendi nada souberam da grande Batalha dos Poderes senão que a terra tremia e gemia sob seus pés e as águas mudavam de lugar; e ao norte havia clarões como os de enormes fogueiras. Longo e angustiante foi o cerco a Utumno e muitas batalhas foram travadas diante de seus portões, das quais nada chegou aos ouvidos dos elfos a não ser rumores.

Finalmente, porém, os portões de Utumno foram arrombados e seus salões destelhados; e Melkor foi refugiar-se em sua masmorra mais profunda. Tulkas apresentou-se então para defender os Valar. Lutou com ele e o lançou de rosto no chão. E Melkor foi acorrentado com Angainor, a corrente que Aulë havia feito, e levado prisioneiro… e o mundo teve paz por três longas eras.

Três Eras de encarceramento, este foi o julgamento dos Valar. E por três Eras Melkor foi mantido prisioneiro nos Salões de Mandos sem que Angainor fosse removida. Porém quando este tempo passou Melkor foi novamente recebido pelos Valar, e diante dos portões de Valmar Melkor humilhou-se aos pés de Manwë e suplicou seu perdão, jurando que se pudesse ser equiparado mesmo ao mais ínfimo dos seres livres de Valinor ajudaria os Valar em todas as suas obras e, principalmente na cura dos muitos danos que causara ao mundo.

Concedeu-lhe então Manwë o perdão; mas os Valar ainda não se dispunham a deixá-lo partir para fora do alcance de sua visão e de sua vigilância; e ele foi obrigado a permanecer dentro dos portões de Valmar. Entretanto eram aparentemente justos todos os atos e palavras de Melkor naquela época; e tanto os Valar quanto os eldar se beneficiavam de sua ajuda e de seus conselhos se os procurassem. Portanto dentro de pouco tempo ele recebeu permissão para andar livremente pelo território de Aman; mas em seu coração Melkor odiava acima de tudo os eldar, tanto por serem belos e alegres quanto por ver neles a razão para o ataque dos Valar e sua própria derrota. Por esse motivo mais ainda simulava amor por eles, procurando sua amizade e lhes oferecendo seu conhecimento e seus serviços em qualquer grande obra que quisessem empreender.

Ora… passado algum tempo Melkor foi a Avathar e assumiu novamente a forma que havia usado como tirano de Utumno: a de um Senhor cruel, alto e terrível. Nessa forma ele permaneceu eternamente. Ali, nas sombras negras fora do alcance até mesmo dos olhos de Manwë em seus altos palácios, Melkor tramou sua vingança aliando-se a Ungoliant… a aranha gigante do submundo.

Um manto de trevas ela teceu ao redor de ambos quando Melkor e ela avançaram: uma antiluz, na qual as coisas pareciam não mais existir e os olhos não conseguiam penetrar porque ela era vazia. E então lentamente ela começou a criar suas teias: corda a corda, de fenda em fenda, de rocha saliente até pináculo de pedra, sempre subindo, arrastando-se e se agarrando até afinal chegar ao próprio cume de Hyarmentir, a montanha mais alta naquela região do mundo, muito ao sul da enorme Taniquetil. Ali os Valar não vigiavam; pois a oeste das Pelóri havia uma terra vazia na penumbra e a leste as montanhas, à exceção da região esquecida de Avathar davam apenas para as águas turvas do mar inexplorado.

Agora porém no topo da montanha estava Ungoliant. Ela teceu uma escada de cordas trançadas e a jogou para baixo. E Melkor subiu por essa escada e chegou àquele lugar nas alturas, parou a seu lado e baixou o olhar até o Reino Protegido. Abaixo deles estavam os bosques de Oromë e a oeste tremeluziam os campos e as pastagens de Yavanna, dourados abaixo do alto trigo dos deuses. Melkor olhou para o norte e avistou ao longe a planície reluzente e os domos de prata de Valmar, cintilando à mescla de luzes de Telperion e Laurelin. Deu então uma forte risada e desceu veloz pelas longas encostas ocidentais. E Ungoliant estava a seu lado, e sua escuridão os encobria.

Naquele mesmo instante Melkor e Ungoliant atravessaram apressados os campos de Valinor como a sombra de uma nuvem negra ao sabor do vento que passa veloz sobre a terra ensolarada. Os dois chegaram à colina verde de Ezellohar, então a antiluz de Ungoliant subiu até as raízes das Árvores e Melkor de um salto escalou a colina. E com uma lança negra atingiu cada Árvore até o cerne ferindo ambas profundamente. A seiva jorrou como se fosse seu sangue e se derramou pelo chão, Ungoliant tudo sugou; e indo de uma Árvore a outra grudou seu bico negro nos ferimentos até que as esgotou. E o veneno da Morte que ela continha penetrou em seus tecidos e as fez murchar, na raiz, no galho, na folha… a as árvores morreram. Einda assim Ungoliant sentiu sede. Foi até os Poços de Varda e também os secou arrotando vapores negros enquanto bebia; e inchou tanto e de forma tão horrenda que Melkor sentiu medo.

Das alturas de Taniquetil Varda olhou para baixo e viu a Sombra que se erguia em súbitas torres de trevas. Valmar havia mergulhado num profundo mar noturno. Logo a Montanha Sagrada estava só, uma última ilha num mundo submerso. Toda a música cessou. Reinava o silêncio em Valinor e não se ouvia nenhum som além de algo que vinha de longe, com o vento atravessando a passagem nas montanhas: o lamento dos elfos como o grito frio de gaivotas. Pois o vento soprava gelado do leste naquela hora e as vastas sombras do mar rolavam contra as muralhas do litoral. Manwë, porém de seu trono elevado olhou ao longe; e somente seus olhos atravessaram a noite até que divisaram uma Escuridão mais do que escura, na qual não conseguiam penetrar imensa mas muito distante, movendo-se agora para o norte a grande velocidade. E ele soube que Melkor havia vindo e ido embora.

Teve início então a perseguição. E a terra tremeu com os cavalos da hoste de Oromë, e as faíscas acesas pelos cascos de Nahar foram a primeira luz que voltou a Valinor. Porém, assim que qualquer um deles alcançava a Nuvem de Ungoliant os cavaleiros dos Valar ficavam cegos e apavorados, e se dispersavam e não sabiam para onde estavam indo; e o som da Valaróma hesitava e se calava. Tulkas parecia alguém preso a uma teia negra à noite, e ele estava ali indefeso, debatendo-se em vão no ar. Mas quando a Escuridão passou era tarde demais. Melkor havia fugido para onde queria, e sua vingança estava consumada.

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